domingo, 7 de dezembro de 2008

Interdição

Estava assistindo, ontem, ao filme "A dupla Vida de Veronique", de Kieslowski. Mas o que me chamou atenção, além do próprio filme, é claro, foi uma palavra dita pelo diretor nos extras do dvd. Kieslowski falava do roteiro e de algumas interdições da vida que são iguais em qualquer lugar do mundo: na Polônia ou no Amazonas (essa adaptação é minha)...

Essa palavra interdição (inter + dito) me tocou fundo, talvez pelos dois filmes dele que assisti nessas duas semanas: além de "Dupla vida", também havia assistido, semana passada, ao "Não amarás"... Os dois, na realidade, falam de amores verdadeiros, mas ao mesmo tempo impossíveis.

Em Não amarás, um rapaz tímido cerca sua vida com um romance real (pra ele), mas impossível na vida de fato. Ele se apaixona pela vizinha do prédio à frente do seu, observando seu dia-a-dia a partir de uma luneta em seu quarto. Todas as suas ações, a partir daí, são conduzidas por esse amor: escolhe trabalhar no correio para ter acesso às cartas que ela trocava com um amor que se foi e também para poder se aproximar dela, quando ela ia ao Correio; depois, decide ser leiteiro para poder entregar o leite na porta da amada. Em algumas vezes, até altera o curso da história da vizinha, como se quisesse mostrar que aquilo tudo era real. Esse real, no entanto, se esfacela quando a amada descobre tudo e reduz o amor do rapaz ao que ela achava setratar somente de desejo sexual. Isso foi a morte para ele, mas não irei contar o final pra alguém poder ver e ter sua própria leitura.

Em "A Dupla Vida de Veronique" há também outras interdições. A de duas personagens que nascem no mesmo dia, mas em lugares diferentes. Elas sentem uma a presença da outra, mas não se conhecem de fato; o filme fala também de um amor real e quase impossível. Veronique se apaixona por um titereiro, aquela pessoa que manipula os personagens em um teatro de bonecos. Não se trata mais de uma personagem tímida (até aparecem cenas de sexo com o namorado), mas de uma personagem que descobre um outro amor possível.

Não sei de que maneira, mas o entreolhar dos dois faz com que o titereiro, mesmo em outra cidade, consiga levar Veronique até ele em um jogo de correspondências e surpresas. É interessante quando Veronique vira para o pai e diz que está apaixonada: o pai pergunta se é correspondido e ela diz que o amado não a conhece e nem ela mesmo conhece o amado, mas sabe que algo marcou no dia em que o viu.

Gosto de pensar nessa possibilidade: de que é possível amar nas entrelinhas; de que é possível amar de outras maneiras e não falo só dos amores do coração, dos amores da carne. Quando desenho, quando leio ou vejo filmes, minha alma fica mais leve... porque esses amores também tornam possíveis os interditos.

* Kieslowski morreu em 1996, de infarto. Não sabia... uma pena...

3 comentários:

Lalá disse...

Quando me falastes do Não Amarás fiquei com vontade de vê-lo e é o que farei hoje. A Dupla vida vai ficar para o final de semana que vem.
Aí eu volto e comento sobre o que achei.

M. de O. disse...

Eu sabia que ele tinha morrido. Só não sabia quando nem como. Um gênio. Tivesse nascido um pouco mais ao ocidente seria mais aclamado ainda. Mas um Gênio, ainda assim.

Unknown disse...

Lalá, vou ficar aguardando o comentário;
M. de O. vc tinha razão... dou o braço a torcer.