domingo, 20 de setembro de 2009

Somos aterrorizantes



* Observação importante: se você ainda não viu este filme e ainda tem pretensões de assisti-lo, não continue a leitura pois ela revela muito do filme e do seu final.


Assisti ao Anticristo, ontem, do cineasta dinamarquês Lars von Trier, e a primeira reação que tive foi a de dizer: "não gostei". Muito dessa negativa veio do fato de não suportar ver certas cenas de violência ou mutilação presentes no filme. Mas Anticristo merece uma segunda reflexão. O bom é que ela vem naturalmente como se, aos poucos, os sentidos do filme fossem se revelando para o espectador.

O roteiro traz a história de um casal às voltas com as angústias e depressão pela perda de um filho. Willem Dafoe, no papel de um psicanalista, tenta ajudar a esposa (Charlotte Gainsbourg) recorrendo à terapia e voltando ao lugar onde a mulher havia passado uma temporada redigindo uma tese sobre o feminicídio. É ali, no meio da floresta (e que eles vão chamar ironicamente de Éden), que eles irão viver o inferno de seus dramas interiores mais profundos.

Esse resuminho acima é o que aparentemente o filme trata, mas não foi assim que o entendi, já discordando de algumas críticas e resenhas que o resumem desta forma. O filme não se centra na dor de uma mãe em luto ou do que uma pessoa é capaz diante da morte de alguém querido. O filme fala da culpa e da condição humana (daí porque as referências à Nietzsche) muito antes da perda do filho pelo casal.

"A natureza é a igreja do Satanás", diz uma das falas da protagonista, e estendo esse inferno novamente à natureza, mas não como a conhecemos e sim a natureza humana. Os dramas da personagem começam em sua solidão no Éden a que ela mesmo se submete junto ao filho pequeno. O filho por si só não foi suficiente para aplacar sua solidão e a angústia pelo desprezo do marido. Seu maior medo, portanto, era o de perder o marido. Seu maior medo girava no egoísmo de ser feliz.

Isto se revela quando o marido dá os indicadores de que a mãe, na verdade, maltratava o filho em seu Éden particular (ele mostra o raio-x dos pés da criança já em processo de deformação e fotos onde ele aparecia com os sapatos trocados, além de lembranças da mãe ao ouvir a criança sozinha chorando). A cena inicial também se mostra reveladora ao final do filme: ela, mantendo relações com o marido e vendo o filho sair do berço (essa sua culpa maior: a de que poderia ter impedido a criança de ter caído da janela).

Temos aí, portanto, a maior corrupção do homem, na frase de Nietzche (no livro Anticristo); isto se traduz na condição do desencontro aos princípios que deveriam ser cristãos: do anticristianismo, na verdade. Do que somos capazes, afinal, muito além do bem e do mal? O personagem de Dafoe parece reconhecer isto como em uma revelação, ao final do filme, mas ainda preciso revê-lo para entender melhor.

No final das contas, La Von Trier produziu um filme de terror diferente e não poderia ser de outra forma para quem fundou o Dogma 95. E, de fato, não há nada mais aterrorizante do que a revelação do lado mais obscuro da condição humana. A cena da morte da criança é expressiva da tentativa do diretor de fugir aos modelos: tem-se a câmera lenta, imagens em preto e branco, e ao fundo uma ária de Haendel (Rinaldo) que diz "deixe-me chorar pelo meu destino cruel (...), que a dor possa romper os laços da minha angústia".

O filme é repleto de imagens-símbolos que merecem um cuidado especial, mas que talvez tenha seu valor para cada espectador.

Enfim, não podemos dizer que não havia dor pela perda da criança, mas uma dor entremeada pelo sentimento de se saber sempre culpado.

O filme também me lembrou de pessoas que estão todos os dias nas Igrejas e Templos, mas que no dia-a-dia são mais anticristãs do que muitos ateus.

sábado, 5 de setembro de 2009

Meu aniversário...

É... 05 de setembro... Mais um ano... Inferno astral chegando ao fim... Que chegue logo o dia 06 :)