domingo, 26 de outubro de 2008

Escureceu... (leia-se um tiro no pé)


Lembro de uma nota publicada em um jornal de grande circulação na época da ditadura militar: "Nuvens negras no céu; o tempo fechou" ou algo assim... Eram mensagens subliminares deixadas pelos editores aos leitores mais atentos na tentativa de mostrar que estavam sob censura braba e que o mar não estava pra peixe.

Hoje, em Manaus, o tempo também fechou. Desaprovar o governo de Serafim seria votar nulo ou branco. Eu entenderia perfeitamente, mas transferir essa votação a Amazonino, é dar um tiro no próprio pé, se é que os que votaram nele entendem o que digo.

Podemos dividir esses votos em dois segmentos: os ignorantes e fascinados com o populismo de um lado; e os que esperam favores em troca do voto, de outro.

Só assim pra entender o que aconteceu.

O passado de Amazonino guarda inúmeras denúncias, que ele nega de pés juntos. Mas são tantas denúncias de improbidade administrativa que só pela desconfiança merecia um pé atrás do caro eleitor.

Ainda restaria ficarmos atentos, feitos fiscais, mas as coisas são feitas de uma maneira tal que nem sherlock holmes se atreveria a descobrir.

Segue trecho publicado nos tempos áureos de Veja, em 1997:

Homem rico -- Aos 57 anos, Amazonino Mendes é um milionário, com patrimônio estimado em 200 milhões de reais. Mas, sempre que precisa revelar sua fortuna à Justiça Eleitoral, o que vem a público é uma lista de bens de operário da Zona Franca. Daí por que no Amazonas se desconfia que o governador recorra a testas-de-ferro para comandar as suas empresas. A Capa e a Exata, duas empreiteiras do Estado, por exemplo, são de Otávio Raman, um ex-motorista de caminhão e dono da belíssima mansão onde o governador reside em Manaus. Na fita, diz-se que Raman costuma apresentar-se como sócio do governador. A Exata fechou recentemente. "A tática é essa", acusa Bomfim. "Eles criam uma empresa, colocam no nome de alguém e sonegam impostos até pedir a falência. Depois criam outra, com outro testa-de-ferro, e assim vão indo", conta.

Ou seja, um tiro no pé...

Janelas

Definitivamente não nasci para a ficção. Não consigo como Selma, Larissa ou Suzi criar histórias do nada. Acho que por isso escolhi a profissão certa. O que me move a escrever é sempre o real. Ontem, uma cena me chamou atenção: uma garota sentada, limpando os olhos de lágrima ao lado de um rapaz, que falava algo pra ela. Minha mente foi longe. Pensei logo nas decepções amorosas. Na dor daquela hora. Lembrei também da interpretação da Elis Regina, chorando, com a letra da música "Atrás da porta", do Chico Buarque:


"Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei..."


Esse olhar que corta como faca e acaba nossos dias.

Queria dizer pra ela que passa, mas a dor não iria passar assim.

Já presenciei várias cenas dessas: de parentes a conhecidos e desconhecidos. Nesta viagem para São Paulo vi cena semelhante: fomos pedir informação de um casal sentado ao longe, em uma estação de metrô. Ao nos aproximar, a moça tentava esconder o rosto, escondendo também as lágrimas. Que chato, pensamos eu e Júlia, minha colega de trabalho.

Devíamos ter uma fórmula mágica que apagasse esses dias. Ou uma pílula que fizesse passar a dor. Por enquanto, o único remédio conhecido tem sido mesmo o tempo. O tempo e nossos projetos pessoais: aquilo que nos faz vivo, como escrever um livro, pintar ou ir ao cinema... Só não se pode morrer por antecipação.

Espero, no entanto, que as cenas vistas tenham sido mal interpretadas. Quem sabe não eram dores do coração, mas sim de outra ordem de sentimentos, a exemplo das interpretações possíveis do livro/filme "Desejo e reparação".

Quem sabe...

"A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo." Merleau-Ponty

sábado, 25 de outubro de 2008

Os meus, os seus, os nossos...

Há alguns anos vínhamos observando um movimento interessante de recusa da população aos candidatos tradicionalmente vistos, tachados e até comprovadamente corruptos. ACM e Maluf sempre foram os mais emblemáticos. Eles sempre voltavam como candidato, mas nos últimos anos, nem com todas as mandingas da Bahia de todos os santos, conseguiam eleger seus candidatos. ACM desde 2006 sentiu o baque; seu neto idem. Maluf quase perdeu todas as eleições.

Em Manaus, tínhamos convivido com isso também. Amazonino sempre carregou, até nacionalmente, a pecha de corrupto além daqueles outros adjetivos que colam toda vez que falamos genericamente da verve de um político. Nas últimas eleições ele perdeu e agora retorna com indicativos de que pode vencer.

Admito que há nesses candidatos uma espécie de fetiche (só Freud pra explicar isso), de carisma também fruto de outro fetiche: daqueles que aparecem na TV ou outras mídias. Certa vez, quando fazia a cobertura de um caso trágico em Manaus (um menino que caiu em um poço; a cobertura levou alguns dias), ouvia e via as pessoas fascinadas ao redor dos jornalistas de televisão. Uma menina me perguntou em qual TV eu trabalhava e expliquei que era de jornal impresso. Ela se virou, um tanto decepcionada, mas pediu assim mesmo um autógrafo.

Muito estranho, foi o que achei na hora. Sem falar na curiosidade mórbida que boa parte da população tem. É essa magia que faz de um candidato medíocre ser, em pouco menos de um ano, um fenômeno de votação. Mundo cão nas telas é fórmula consagrada.

Assim, colocando no mesmo balaio (não vou falar de gatos porque seria uma maldade com os bichanos) todos os candidatos tradicionalmente vistos e apontados como corruptos, fico sem entender como alguém em sua sã consciência ainda possa escolhê-los para gerir suas vidas.

E aí me vem a explicação individualista. Embora uma eleição seja coletiva, é o individual, nesses casos, que acaba prevalecendo. Quem escolhe um candidato sabidamente (ou sabinamente) corrupto, só pode estar pensando de maneira egoísta de que poderá se beneficiar desta mesma corrupção, acreditando ser em menor escala. Por isso ouço tantos argumentos como os que seguem: voto em troca de uma vaga de emprego para um marido; uma facilitação para a empresa x; um emprego fantasma para outro; uma passagem aérea, enfim, uma vida boa para "os seus".

Nesses casos, portanto, não importa se for um Hitler, um skinhead ou a ku kux klan: o que importa é levar vantagem. O que importa é que seu mundinho seja preservado. Às favas crianças nas ruas; às favas educação; às favas saúde. A prioridade será sempre "os seus". Por isso, os políticos falam quea educação pública melhorou, mas continuam colocando seus filhos em escolas particulares. Por isso, falam que a saúde melhorou, mas continuam pagando planos de saúde ou levando "os seus" para fora do estado ou até país.

A essas pessoas não há outra explicação: falta o que comumente chamamos de "vergonha na cara".

E a essas pessoas não permitiremos que reclamem, JAMAIS, da vergonha dos desvios de verba, do uso de dinheiro público para favorecimento pessoal. CALEM-SE, TODOS. Não falem mais de política; não reclamem da saúde; não falem da educação. Não digam: cansei. Não resmunguem sobre o trânsito. Nem se o vizinho colocar o som às alturas. Vocês perderam o direito.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Dias nostálgicos

Hoje é um dia daqueles que você acorda, encontra rotina... depois o sol e os sons te deixam um tanto nostálgica... Preciso de coisas pra fazer...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Down

Estou em São Paulo. Quem me conhece sabe que gosto muito dessa cidade. Mas essa história do sequestro me deixou muito down... mal mesmo...

amanhã deve ser outro dia...

domingo, 12 de outubro de 2008

Viver é desconfortável

Um trecho de Clarice para uma tarde de domingo meio cinzenta...

"Ah, viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára, viver parece ter sono e não poder dormir - viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito.
...

Tudo acaba, mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.
...

Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou - apesar de tudo - sendo alegre. [...]
Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo.

Trechos de "Água Viva", mas admito que não estão na ordem em que aparecem no livro.

sábado, 11 de outubro de 2008

Los

Um dia estávamos em uma discussão sobre quem gostávamos mais: Camelo ou Amarente, do Los Hermanos. Confesso que ainda não sei, mas ao ouvir o CD-solo do Camelo consegui reviver um pouco do Los. Bateu uma saudade...

Mas a música último romance, do Amarante, é das minhas preferidas...




Último Romance

Eu encontrei quando não quis
mais procurar o meu amor
e o quanto levou foi pra eu merecer
antes um mês e eu já não sei
e até quem me vê lendo jornal
na fila do pão sabe que eu te encontrei

e ninguém dirá
que é tarde demais
que é tão diferente assim
do nosso amor
a gente é que sabe pequena

ah vai
me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
afim de te acompanhar
e se o caso for de ir a praia
eu levo essa casa numa sacola..

eu encontrei e quis duvidar
tanto clichê
deve não ser
você me falou
pra eu não me preocupar
ter fé e ver coragem no amor
e só de te ver
eu penso em trocar
a minha tv num jeito de te levar
a qualquer lugar
que você queira
e ir onde o vento for
que pra nos dois
sair de casa já é
se aventurar

ah vai
me diz o que é o sossego que eu te mostro alguém
afim de te acompanhar
e se o tempo for te levar eu sigo essa hora
eu pego carona
pra te acompanhar

* A capa do CD é bem sugestiva (sou/nós) e o encarte muito bonito...

Cinismo

Parei pra prestar atenção na letra. Adorei! "De cada amor tu herdarás só o cinismo".

O mundo é um moinho
Cartola

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó.
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés

Cartola

Hoje é dia de Cartola. Data de seu nascimento. Dia de poesia, de lirismo. Lembro do Cazuza cantando "O mundo é um moinho" e fico me perguntando, como pode alguém tecer versos que nos tocam tanto...?

Viva, Cartola!


e o Sol nascerá...

A sorrir
Eu pretendo levar a vida,
Pois chorando
Eu vi a mocidade perdida.
A sorrir
Eu pretendo levar a vida,
Pois chorando
Eu vi a mocidade perdida.
Finda a tempestade
O sol nascerá,
Finda esta saudade
Hei de ter outro alguém para amar.
A sorrir
Eu pretendo levar a vida,
Pois chorando
Eu vi a mocidade perdida.
A sorrir
Eu pretendo levar a vida,
Pois chorando
Eu vi a mocidade perdida.
Levar a vida

*Música pra espantar todos que nos deprimem!

domingo, 5 de outubro de 2008

Dragão da Maldade

Hoje é dia de eleição e apareceu na porta de casa um panfleto dando conta de que Praciano é o candidato capaz de vencer Amazonino. Abro o jornal Em Tempo e o Contexto diz que só Omar pode derrotar Amazonino no segundo turno... Serafim já havia falado o mesmo... Navarro e Bessa não falam em vencer, mas mostram porque não devemos votar "neles".

Daí me veio o filme de Glauber Rocha, "O Dragão da Maldade contra o santo guerreiro" e a frase-explicação de Glauber:

"O Dragão é inicialmente Antonio das Mortes, assim como São Jorge é o cangaceiro. Depois, o verdadeiro dragão é o latifundiário, enquanto o Santo Guerreiro passa a ser o professor quando pega as armas do cangaceiro e de Antonio das Mortes. Em suma, queria dizer que tais papéis sociais não são eternos e imóveis, e que tais componentes de agrupamentos sociais solidamente conservadores, ou reacionários, ou cúmplices do poder, podem mudar e contribuir para mudar. Basta que entendam onde está o verdadeiro dragão."

Sabemos que temos um dragão maior da maldade, mas muitos outros desempenhando o mesmo papel... Está difícil entender...

Na inversão de papéis, nem acreditei quando vi Vanessa e cia pedindo voto para Omar. Há alguns anos, eles estariam em lados opostos. Da mesma maneira, Omar contra Amazonino e assim por diante...

Talvez o difícil, Glauber, não seja entender onde está o verdadeiro dragão, mas saber por que há mais cúmplices dos dragões do que santos guerreiros.