Definitivamente não nasci para a ficção. Não consigo como Selma, Larissa ou Suzi criar histórias do nada. Acho que por isso escolhi a profissão certa. O que me move a escrever é sempre o real. Ontem, uma cena me chamou atenção: uma garota sentada, limpando os olhos de lágrima ao lado de um rapaz, que falava algo pra ela. Minha mente foi longe. Pensei logo nas decepções amorosas. Na dor daquela hora. Lembrei também da interpretação da Elis Regina, chorando, com a letra da música "Atrás da porta", do Chico Buarque:"Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei..."
Esse olhar que corta como faca e acaba nossos dias.
Queria dizer pra ela que passa, mas a dor não iria passar assim.
Já presenciei várias cenas dessas: de parentes a conhecidos e desconhecidos. Nesta viagem para São Paulo vi cena semelhante: fomos pedir informação de um casal sentado ao longe, em uma estação de metrô. Ao nos aproximar, a moça tentava esconder o rosto, escondendo também as lágrimas. Que chato, pensamos eu e Júlia, minha colega de trabalho.
Devíamos ter uma fórmula mágica que apagasse esses dias. Ou uma pílula que fizesse passar a dor. Por enquanto, o único remédio conhecido tem sido mesmo o tempo. O tempo e nossos projetos pessoais: aquilo que nos faz vivo, como escrever um livro, pintar ou ir ao cinema... Só não se pode morrer por antecipação.
Espero, no entanto, que as cenas vistas tenham sido mal interpretadas. Quem sabe não eram dores do coração, mas sim de outra ordem de sentimentos, a exemplo das interpretações possíveis do livro/filme "Desejo e reparação".
Quem sabe...
"A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo." Merleau-Ponty
Nenhum comentário:
Postar um comentário