Concluí, novamente, Esperando Godot, de Samuel Beckett, dessa vez a edição cuidadosa da CosacNaify. O livro, agora, tem a minha cara: está grifado a lápis e as melhores passagens ainda ganharam o "divisor" de páginas dobradas na ponta do vértice.Antes, eu não permitia essa marcação em meus livros. Achava quase uma heresia "machucá-lo". Mas foi a partir da leitura e releitura de Água Viva, de Clarice Lispector, que mudei de opinião. Em uma das releituras, não tinha lápis pra grifar, mas queria marcar certas passagens e tive de apelar para a dobra das páginas. A cada nova leitura, o livro foi ganhando novos grifos e novas dobras. Mas são as minhas marcas, os caminhos pelos quais percorri no livro.
Comprei, no passado, vários livros em sebos. Sempre evitei comprar aqueles que tinham o nome do antigo dono, exceto um: era da área de Sociologia da Comunicação e pertecera a Ciro Marcondes Filho. Além da assinatura do estudioso da Comunicação, havia ali o seu ex-libris, que adorei (e passei a fazer um pra mim), e algumas passagens grifadas. É como se estivesse lendo o livro junto com o antigo dono.
Voltando a Godot, Becktt e o teatro do absurdo, fico pensando em nossas apostas, nossas esperas... Portanto, saiba, talvez não venha e pode ser melhor assim.
"Ele não consegue mais suportar a minha presença. Talvez eu não seja particularmente humano, mas isso lá é motivo? (a Vladimir) Pense duas vezes antes de cometer um desatino. Digamos que parta agora, enquanto ainda está claro, pois apesar de tudo ainda é dia. Bem, o que seria, nesse caso do seu encontro com o tal... Godet... Godot... Godin... enfim, sabe de quem estou falando, que carrega o futuro em suas mãos... enfim, seu futuro imediato". Personagem Pozzo, Esperando Godot, p 58/59.
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