domingo, 2 de novembro de 2008

Jornalismo às avessas

Manaus criou, nos últimos meses, uma nova categoria para o Jornalismo: chama-se DESJORNALISMO. Explico o novo fenômeno, que nem é tão novo assim, mas chegou a seu ápice nessa última eleição (a cada nova eleição há sempre um ápice).

O prefixo DES tem um significado claro quando se aproxima de outra palavra. Houaiss que o diga, na sua primeira e também segunda acepção:

DES
" 1) oposição, negação ou falta: desabrigo, desamor, desarmonia, desconfiança, descortês, desleal, desproporção, dessaboroso; 2) separação, afastamento: descascar, desembolsar, desenterrar, desmascarar".

Percebam que toda vez que este prefixo cola em uma palavra, de imediato o que era bom fica mau: amor vira desamor; honestidade sucumbe à desonestidade; leal em um instante torna-se desleal e por aí vai... Logo, ao se aproximar da palavra Jornalismo, o que temos é um DESserviço, um adeus ao Jornalismo. o DESJORNALISMO, portanto, é a negação de tudo que se aprende nas escolas de comunicação. Basta olhar os jornais, ouvir as rádios e ver tv: o ouvir o outro lado, norma básica em qualquer lugar do mundo, e não só no jornalismo, foi sumariamente DEScartado das redações, principalmente nas manchetes impressas e até sem manchetes. Agora é DEScarado mesmo e não mais subliminar como se vê em outras plagas jornalísticas ou se via no passado. Será que eles acham mesmo que podem passar ilesos sem atingir o bem maior do jornalismo que é a credibilidade? Acreditar nessas montagens pseudo-jornalísticas é prescindir demais de nossa inteligência.

Se depois do segundo turno já estava com vergonha de Manaus, fico duplamente envergonhada porque sei que o resultado é fruto também da utilização dos veículos de comunicação da maneira mais abjeta possível. E no meio disso tudo, ainda há jornalistas sérios que, imagino, devam estar ainda mais DESconfortáveis com toda a situação. Não os culpo. Talvez eles sofram mais que a gente porque estão perto dos bastidores. No passado, sempre dizíamos que o problema estava com os donos dos veículos, que não eram jornalistas, mas até no jornal onde os donos são de fato jornalistas, a utilização DESavergonhada tomou lugar.

E ainda teve jornal que disse não ter ouvido o outro lado porque o "fato" chegou no final do fechamento da edição. Mais competente foi o setor de marketing que mesmo no calor do dito dead-line conseguiu produzir uma cinta (aquelas faixas de papel que embalam o jornal) em tempo pra lá de recorde. Isso é que é competência!

O DESJORNALISMO é, na verdade, um subproduto do pior tipo de marketing (deixo margem para os que têm responsabilidade), onde se ressalta sempre o lado positivo daquele que vos paga, custe o que custar. Ressalvo a observação do Stalimir Vieira lembrando de uma publicitária ou profissional do marketing que queria fazer uma campanha para a população se auto-medicar e, com isso, aumentar as vendas de seu cliente (uma empresa farmacêutica ou algo assim...). Um crime, ele contou, não permitindo que aquilo acontecesse. A Publicidade, pelo menos, ainda tem um Conar da vida para frear os abusos. Já o jornalismo... Vamos cobrar de quem?

Quem sabe chegaremos ao dia em que a primeira página de um jornal ou a locução das rádios e tvs venham com a seguinte frase: "Esse produto faz mal à humanidade". Mas espero mais ainda que essa frase não seja mais necessária e que o prefixo DES seja banido tanto de minha desESPERANÇA quanto do DESjornalismo.

Um comentário:

M. de O. disse...

É o fenômeno local daquilo que o intimorato Paulo Henrique Amorim chama de PIG (Partido da Imprensa Golpista).