Passei alguns dias com imagens que, de vez em quando, visitavam minha mente. Eram cenas do filme “Ensaio sobre a cegueira”, adaptação de Fernando Meirelles para o livro homônimo de José Saramago.As imagens mais recorrentes, no entanto, eram as que considerei também como as mais fortes no filme porque registravam não apenas uma cena de estupro, mas também a crueldade humana. Não consigo entender a barbárie. Não consigo entender os homens. Não consigo entender aqueles que se chamam de civilizados.
Talvez o meu não-entender esteja na base da “cegueira branca” do filme, doença criada pela ficção para tentar descrever o ser humano (ou o não-humano). “Ensaio” conta a história de pessoas sem histórias, sem nomes, em uma cidade fictícia, que são vítimas de uma epidemia: a cegueira branca. Elas são confinadas em um sanatório abandonado e em condições subumanas.
Da nova vivência – somente a protagonista enxergava e fingia não ver – vão surgindo os grupos e “guerras” que tanto conhecemos: intrigas, lutas pelo poder, liderança, afetividade e a cegueira total, em todos os sentidos. Ver, não ver, não querer ver e querer ver fazem parte de nossas escolhas diárias. É preciso estar atento a elas.
Saí do cinema (uma sessão e meia porque a primeira delas houve queda de energia e não pudemos ver o final; tivemos de continuar o filme em outro cinema) com o coração pesado, confesso, mas ao mesmo tempo feliz com a realização do filme. Não li o livro e estou curiosa para lê-lo, mas é esse estranhamento (“um soco parado no ar”, no dizer de Walter Sales sobre o filme) que me faz ter certeza de que se trata de um dos melhores filmes que já vi. Vale a pena querer ver também.
* o filme não foi bem recebido pela crítica quando da apresentação em Cannes, mas do que li houve um erro ao se criar um paralelo com o filme Cidade de Deus, como se o diretor sempre recorresse a temas que enfocam a pobreza, favelização e violência. Um erro, no meu entendimento: a violência a que ele fala é de outra ordem, embora toque também no Brasil.
** Não li muito sobre as filmagens sobre Cegueira, mas tenho quase certeza de que a segunda imagem desse post foi filmada em São Paulo.
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